Sentimos a dor mas não a sua ausência.
Devemos considerar a vida como uma mentira contínua, tanto nas coisas pequenas como nas grandes. Prometeu? Não cumpre a promessa, a não ser para mostrar quanto o desejo era pouco desejável: tão depressa é a esperança que nos ilude, como a coisa com que contávamos. — Se nos deu, foi só para nos tornar a tirar. A magia da distância apresenta-nos paraísos que desaparecem como visões logo que nos deixamos seduzir.
Mas como o que eu então recordasse me seria fornecido unicamente pela memória voluntária, a memória da inteligência, e como as informações que ela nos dá sobre o passado não conservam nada deste, nunca me teria lembrado de pensar no restante de Combray. Na verdade, tudo isso estava morto para mim.
Ou porque a fé que cria se haja estancado em mim, ou porque a realidade só se forme na memória, as flores que hoje me mostram pela primeira vez não me parecem flores de verdade.
... vestia-se pensando em Odette, e assim não se sentia sozinho, pois o pensamento constante de Odette dava aos instantes em que se achava longe dela o mesmo encanto daqueles em que estavam juntos.
Como todos os que possuem uma coisa, Swann, para ver o que aconteceria se deixasse um momento de possuí-la, tirara essa coisa de seu espírito, ali deixando tudo o mais no mesmo estado de quando ela ali estava. Ora, a ausência de uma coisa não é apenas isso, não é uma simples falta parcial, é um transtorno de todo o resto, é um estado novo que não se pode prever no antigo.
Coisa estranha que tais palavras, ‘umas duas ou três vezes’, nada mais que palavras, palavras pronunciadas no ar, a distância, possam assim dilacerar o coração como se o tocassem de verdade, possam fazer adoecer, como um veneno que se ingerisse.
Muitas vezes não prestamos bastante atenção, no momento, em coisas que já então podiam parecer-nos importantes; não ouvimos bem uma frase, não notamos um gesto, ou senão os esquecemos. E quando, mais tarde, ávidos por descobrir a verdade, remontamos em dedução, folheando nossa memória como uma coleção de testemunhos, chegamos a essa frase, a esse gesto, é impossível nos lembrarmos; recomeçamos vinte vezes o mesmo trajeto, mas inutilmente: o caminho não vai mais adiante.
A verdadeira arte da memória é a arte da atenção.
Creiam-me, o menos mal é recordar; ninguém se fie da felicidade presente; há nela uma gota da baba de Caim
A ausência diminui as paixões medíocres e aumenta as grandes, como o vento apaga as velas e atiça as fogueiras.
Achei Machado de Assis excepcionalmente espirituoso, dono de uma perspectiva sofisticada e contemporânea, o que é incomum, já que o livro [Memórias Póstumas de Brás Cubas] foi escrito há tantos anos. Fiquei muito surpreso. É muito sofisticado, divertido, irônico. Alguns dirão: ele é cínico. Eu diria que Machado de Assis é realista.
É melhor a ausência de luz do que uma luz trêmula e incerta, servindo apenas para extraviar aqueles que a seguem.
Coragem é a resistência ao medo, domínio do medo, e não a ausência do medo
Coragem é a resistência ao medo, o domínio do medo, e não a ausência do medo
Os nossos guias espirituais traduzem a nossa insatisfação, no mundo inteiro, como sendo a ausência de Jesus Cristo em nossos corações.
O ser alienado não procura um mundo autêntico. Isto provoca uma nostalgia: deseja outro país e lamenta ter nascido no seu. Tem vergonha da sua realidade. Vive em outro país e trata de imitá-lo e se crê culto quanto menos nativo é.
Não há nada mais triste que uma ausência (...), só fica uma pungente melancolia, esta que faz (...) sentar ao cravo e tocar um pouco, quase nada, apenas passando os dedos pelas teclas como se estivessem olhando um rosto quando já as palavras foram ditas ou são de menos.
A propósito, não resistiremos a recordar que a morte, por si mesma, sozinha, sem qualquer ajuda externa, sempre matou muito menos que o homem.
Se você rezar por chuva por bastante tempo, ela fatalmente cai. Se você rezar para que enxurradas se acalmem, elas fatalmente o farão. O mesmo acontece na ausência de preces
Disseram-me que os chineses me enterrariam próximo ao Lago Ocidental e construiriam um templo em memória a mim. Tenho um leve arrependimento de que isto não tenha acontecido, pois eu poderia ter me tornado um deus, o que teria sido muito chique para um ateu.
O animal humano, igual a todos os demais, está adaptado a um certo grau de luta pela vida e, quando sua grande riqueza permite a um Homo sapiens satisfazer sem esforço todos os seus caprichos, a simples ausência de esforço retira de sua vida um ingrediente imprescindível à felicidade.
Eu pensei que ia seguir a carreira diplomática", explicou ao Memória Globo. "Mas sempre ia ao teatro, sempre ia assistir a shows, ia para a coxia ver como era. E já inventava números de sátira do cinema americano; fazia a dança com os sapatinhos que eu calçava nos dedos.
Noite. Oh! Saudade!... A dolorosa rama / Da árvore aflita pelo chão derrama / As folhas, como lágrimas... Lembrar!
A bagagem de Julio Verne, amontoada na memória, faz nascer o desejo do estudo. Suportamos e compreendemos o abstrato só quando já existe material concreto na memória. Mas pegar uma pobre criança e pô-la a decorar nomes de rios, cidades, golfos, mares, como se faz hoje, sem intermédio da imaginação, chega a ser criminoso. No entanto, é o que se faz! (...) A arte abrindo caminho à ciência: quando compreenderão os professores que o segredo de tudo está aqui? .
...tudo compreender, tudo ver e vê-lo muitas vezes, de modo incomparavelmente mais nítido do que o fazem todas as nossas inteligências mais positivas; não se conformar com nada e com ninguém, mas ao mesmo tempo, não desdenhar de nada..." Memórias do Subsolo da Editora 34
Nos processos criminais os advogados têm frequentemente justificado seus constituintes, alegando inconsciência no momento do crime, o que é, na opinião deles, simples caso de doença. E imagine só, meu general, que a medicina lhes dá razão. O médico e o advogado mancomunam-se para descbrir um louco sob a máscara de um assassino. Alegam existir de fato uma demência temporária, durante a qual o indivíduo perde, senão completamente, ao menos em grande parte, a memória.
A poesia moral, filtrando no coração, aí entorna o perfume da virtude, e mesmo quando a memória tem-na esquecido, o coração guarda dela uma reminiscência suave, como essas ânforas antigas, quando mesmo esgotadas, rescendem os aromas, que se lhe conglutinaram.
Cocaína usei uma, duas, três vezes e não tive nenhum benefício. Maconha usei muito e não tenho vontade nenhuma de usar mais. Do álcool, não sinto saudade.
A ausência diminui as pequenas paixões e exalta as grandes, assim como o vento, que apaga as velas e atiça as fogueiras.
